eu sou magra

Eu sou magra. Nunca pesei 55 quilos.

Sempre fico entre os 48 e os 52, com pouca variação, estando a maior parte do tempo nos 50 e algumas gramas.

Tenho 1,63m.

Sou negra, com o tom da pele meio bege, meio marrom, os lábios mais ou menos grossos, o nariz mais ou menos grande; meu dente canino superior direito cresceu em cima do incisivo e isso me incomoda bastante, deixa meus lábios assimétricos (dizem que a beleza é simétrica). Por conta disso, evito tirar fotos de frente ou do perfil direito. Prefiro fotografias que retratem meu rosto mais próximo do perfil esquerdo, porque faz eu parecer mais bonita do que sou de fato.

Raramente tiro fotografias sorrindo.

Nesse momento uso dreads no cabelo, mas já passei por diversos penteados: alisamento, relaxamento, careca, permanente, tranças de canecalon. Tive cabelos coloridos, azuis, roxos e verdes.

Tenho dois piercings no nariz, de argola, na narina esquerda.

Três tatuagens bem menores do que eu gostaria: uma no tornozelo direito, uma na virilha e uma nas costas.

Suspiro de vontade de usar alargadores, mas tenho um medo irracional daqueles pinos rasgando meus lóbulos.

Tenho seios pequenos. Médios. Duas cicatrizes no seio direito resultado de uma cirurgia para retirar dois nódulos benignos quando tinha 19. Eu não precisava retirá-los, mas eles me incomodavam pq sempre dava a impressão que eles eram visíveis, inclusive através da roupa, e que eles deixavam meus seios com “pontas”.

Fiz também pq acho cicatrizes sexies. Elas não ficaram bem do jeito que imaginei pq não cuidei direito no pós operatório, mas gosto delas na maior parte do tempo.

Odeio minhas canelas muito finas e penso e repenso muito as minhas roupas pra tentar esconder/disfarçar essa parte do meu corpo.

Costumo usar esmalte, me maquiar para determinadas ocasiões, usar sandálias, “melissa”, às vezes salto, vestidos, roupas curtas, decotadas, transparentes.

As vezes acho que gosto de me vestir assim, acho divertido o interesse que desperta nas pessoas, mas as vezes acho que só visto dessa forma para tentar compensar a minha falta de grandes atrativos físicos e me sentir mais desejável.

Minha primeira grande paixão foi aos 16 anos por uma menina de cabelos roxos, linda, extrovertida, popular, descolada, bem humorada, engraçada, que fazia os outros rirem e estava sempre rodeada de amigos e meninas.

Não sei se queria estar com ela ou ser ela, porque ela era exatamente como eu queria ser. Até hoje tenho essa dúvida.

Entre nós duas nunca aconteceu nada, porque eu não fazia o tipo dela. Ela gosta de loiras.

Antes dessa idade e até o começo do ensino médio, eu era a CDF do cabelo duro que fazia a lição dos outros pra ter amigos eventuais. Sempre procurava ser do grêmio ou me eleger representante de classe para mais pessoas terem motivo para falar comigo.

Sou uma pessoa absolutamente insegura e com a autoestima sempre por um fio.

Encano com tudo, sempre acho que as indiretas e comentários negativos referem-se a mim. Se são coisas boas, ao contrário, nunca acho que podem ser a meu respeito.

Dentre os  preconceitos com os quais convivo todos os dias, a gordofobia não é um deles. Nesse sentido, creio que a magreza seja um privilégio. Mas isso não significa que esteja satisfeita assim.

Ser magra não me faz feliz. Queria ser gostosa. Ter bundão, coxa grossa, ser arredondada e atraente.

Algumas pessoas me olham, ouço “elogios” nas ruas as vezes, mas isso não me convence. Em alguns dias me olho no espelho e fico feliz com as coisas boas que vejo. Em outros dias, olho e vejo apenas as ruins.

E o menor sinal da reprovação alheia é suficiente pra fazer tudo desmoronar.

Eu queria ser milhares de coisas que não sou.  O que mais queria é ser engraçada, espirituosa, bem humorada, daquelas pessoas que aglutinam gente em volta de si e as fazem rir. Queria esse magnetismo.

Tento e tento mas não consigo, fica falso, mecânico e nada espontâneo. Mas ainda assim tento.

Nos últimos anos, tenho tentado me cercar de pessoas diferentes, conheci o feminismo, questionei algumas certezas, conceitos e preconceitos, em parte para contribuir com a diminuição das injustiças e das desigualdades, mas também, e principalmente, para tentar me convencer do contrário e não me sentir medíocre, feia, pouco atraente ou entediante.

Todo esse exercício ostensivo até gera resultados as vezes. Eu tenho meus momentos, naqueles em que me sinto linda, interessante, sexy, atraente, magnética. E acho que quando me sinto assim, consigo convencer os outros.

Mas basta entrar num shopping com aquelas lojas lindas e cheirosas e cheias de roupas, sapatos e pessoas lindas se vestindo lindamente e atraindo mais pessoas lindas para perto de si sendo ricas e felizes e sorrindo e se divertindo, pra eu voltar a me sentir feia e pobre.

Só mais uma mulher

“Meu maior sonho? Ter minha casa e uma renda para poder acordar a hora que eu quiser sem me preocupar com horário, patrão, essas coisas.”

Que pessoas têm sonhos como esses? Quem sente que a liberdade é um dos maiores bens que alguém pode ter? Pessoas de que tipo anseiam por autonomia e tranquilidade?

Todas? A maioria?

Provavelmente, sim.

E a dona dessa frase, a sonhadora desse sonho tão comum é apenas uma mulher. Só mais uma.

Além de independência econômica e libertação das amarras da rotina, ela só quer ter filhos se puder garantir a criação deles de forma digna, humana. Uma mulher que pensa nas suas dúvidas e certezas quando se olha no espelho, tem conflitos familiares, crê em um Deus. Mas às vezes tem duvidas, sofre, chora. Mas também sorri e é feliz.

Estaria falando de qualquer pessoa, já que essas características são tão comuns, tão ordinárias.

Mas este é um breve retrato de Maria Augusta Silveira, ou só Guta. Uma mulher forte de 44 anos que nasceu com o corpo dessintonizado do seu sentimento, do seu pensamento, do seu desejo.

Teve tristezas e desconsolo na infância e adolescência, menos por conta do seu corpo inadequado, mais pela incompreensão e julgamento dos que não entendiam sua natureza. Sabia desde sempre de sua mulherice, mesmo antes de entender o que isso significava. Mesmo que a obrigassem a usar azul, brincar de carrinho ou fazer xixi de pé.

Daí que ela foi crescendo sem saber muito bem em que lugar cabia. Aos 13 anos, assumiu à sua família que era diferente. Ela sabia exatamente o que sentia, mas não sabia como explicar, porque ninguém nunca tinha dado um nome ao seu sentimento, ninguém se atrevia a falar sobre isso e ela não se parecia com ninguém que conhecesse.

Aos 22 anos Guta encontrou algum alento ao descobrir a existência da transexualidade e que havia quem desse cuidados especiais a cada caso, mesmo que experimentais. Estudou, se informou, sonhou ainda mais. Aos 28, começou tratamento e acompanhamento médico e aos 31, finalmente, sintonizou mente e corpo. Suas angústias de inadequação chegaram ao fim.

Ela segue firme com a certeza que sempre teve: ser mulher está no seu coração. “Se já pensei em desistir de ser mulher? Não há como desistir. Alguém desiste de ter pernas, olhos, boca? Não teria do que desistir, já nasci essa que eu sou hoje. Minha cirurgia só mudou meu físico, foi como reparar um nariz incômodo, porque dentro eu sempre fui a mesma.”E dessa adequação resultaram felicidades simples, que só sintonizaram Guta às felicidades simples de todas as outras pessoas. Só a transformou em uma mulher ainda mais especialmente comum. “Minha maior felicidade foi quando voltei para casa depois da cirurgia, me olhei no espelho grande, pulei e notei que a única coisa que balançava eram meus seios.”

Guta é uma mulher comum, tão extraordinariamente comum quanto qualquer ser humano pode ser. Encerra em si suas verdades, suas virtudes, seus vícios. Leva dezenas de histórias de tristeza e lágrimas, e outras dezenas de felicidade e superação. Em nada ela é muito diferente de mim ou de você. Já caiu e se levantou incontáveis vezes e deve fazer isso outras mais até o fim da vida.  Seu maior sonho é envelhecer em paz.

Aliás, porque ela haveria de querer algo diferente?

Com Marcio Souza

Colaborou Roberta Braghittoni